"Projeto Natureza": breves considerações sobre o discurso eufemístico da CMPC
- Susiani Silva Guisolfi
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

As considerações aqui partem do conteúdo publicado pela CMPC Celulose Riograndens Ltda. no Relatório de Impacto Ambiental (Rima) do projeto de ampliação de suas operações no Rio Grande do Sul, a partir da cidade de Barra do Ribeiro. A CMPC identificada como responsável pela elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Rima a Afry Brasil Ltda., com sede em São Paulo.
Informações do Rima apontam que o projeto pretende construir uma fábrica de celulose e um porto em Barra do Ribeiro com capacidade para processar até três milhões de toneladas de celulose branca por ano, a partir de 11,8 milhões de toneladas de madeira. Para essa produção, são utilizadas toras de eucalipto, água para cozinhar a madeira e produtos químicos (oxigênio, soda cáustica e outros não informados) para branquear o produto. Um processo denominado "prensagem" retira parte do líquido exposto a esses químicos durante o branqueamento da celulose antes da comercialização. O que sobra desse processo de cozimento, chamado "licor negro", é queimado e evaporado. O transporte do material será feito através da Lagoa dos Patos e do Rio Guaíba. O Guaíba, um curso d'água já muito poluído que sofre por falta de proteção legal e institucional, é a principal fonte de abastecimento de água da região metropolitana de Porto Alegre, que abriga aproximadamente 40% da população do Rio Grande do Sul. Serão retirados cerca de 12 mil metros cúbicos de água por hora do Guaíba e devolvidos em torno de 80% desse volume, após o uso no processo contaminante da fábrica.
Justificativa do empreendimento
A empresa busca justificar a implantação da nova fábrica de celulose a partir de meras promessas tecnológicas de redução de poluentes emitidos, o que já pode ser considerado lugar comum de métodos narrativos adotados por empresas com atividades de grande impacto ambiental para conquistar a Licença Social para Operar (LSO)¹. "A fábrica usará um processo de produção de celulose chamado “kraft”, que aplica muitas tecnologias avançadas e é favorável para o meio ambiente", dizem. Além dessa estratégia, a empresa chilena - que no próprio nome já falseia uma identificação marqueteira com o povo gaúcho (Celulose Riograndense) - batiza, eufemisticamente, o novo projeto de monoculturas de eucalipto e processos químicos de "Projeto Natureza". Ciente dos sérios impactos que a empresa já causa, especialmente no bioma Pampa, a direção da CMPC busca patrocinar projetos culturais, midiáticos e ambientais como forma de tentar limpar uma imagem prioritariamente negativa (greenwhashing). Fizeram isso na COP 30 e em muitas outras situações, há muitos anos.
Do ponto de vista social e econômico de um projeto que impacta milhares de hectares de campos no RS, convertendo a rica vegetação nativa em monocultivos (produção de uma única espécie, pobres do ponto de vista ecológico e da biodiversidade) e suprimindo a produção tradicional, a justificativa se reduz a alguns empregos (2.300, diretos e indiretos), visando conquistar apoio do poder público e de parte da população. Afirmam que o mercado de celulose está crescendo e que "a implantação da fábrica e do porto vai ajudar o desenvolvimento econômico e a infraestrutura da região onde eles estão instalados", beneficiando o município, o estado do RS e o Brasil. No entanto, esqueceram-se de informar que muitos moradores de Guaíba já se mudaram da cidade em função da poluição local (ruído, odor e fuligem), apesar de o município ter apresentado bons índices econômicos. O desenvolvimento econômico de Guaíba não resultou em ampliação da qualidade de vida para os gaúchos. Vale ressaltar que os impactos da CMPC são distribuídos por todos os municípios onde existem plantações de eucalipto e trafegam pesados caminhões com toras de madeira. Esse aspecto é percebido por quem trafega nas vias federais da metade Sul. Nesse sentido, entende-se que os benefícios concentrados em um único município não compensam os malefícios socioambientais distribuídos pelo estado e suportados por investimentos da União.
No próximo dia 29 de janeiro, com início marcado para 16h, será realizada uma audiência pública em Barra do Ribeiro (rua 14 de julho, nº. 871, no centro) para debater o licenciamento ambiental desse novo projeto contra a natureza.
O link para acompanhamento virtual será disponibilizado pela Fepam no endereço http://ww3.fepam.rs.gov.br/audiencias.asp.
Comentários sobre o projeto podem ser encaminhados pelo e-mail projeto-natureza@fepam.rs.gov.br até o dia 05 de fevereiro de 2026.
Heverton Lacerda
Jornalista e presidente da Agapan
1 - A origem da LSO está relacionada a conflitos em locais onde o setor de mineração atua. "A noção de “licença social” surgiu nos debates sobre os conflitos sociais associados à expansão da indústria mineradora no Canadá, enquanto grande parte de sua difusão deve-se à ressonância que agências supranacionais, como o Banco Mundial, têm feito dela" (Gaviria, 2015, p. 140).









Comentários