17 novembro 2017

Mesmo ameaçada de extinção, FZB gera riquezas para o Estado

Para que ampliar o orçamento de fundações extintas? No caso de extinção da FZB, quem será responsável pelos acervos científicos e naturais?


Foto: João Batista/Agapan
Com estas e outras perguntas, aconteceu o Agapan Debate sobre a importância da Fundação Zoobotânica do RS (FZB) para a ciência e para a conservação das espécies. A atividade, última do ano, aconteceu na noite de segunda-feira (13/11) no auditório da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, e reuniu mais de 50 pessoas, entre estudantes, técnicos e pesquisadores.

Além dos acervos e coleções científicas vivas, tanto da flora como da fauna do RS, a FZB desenvolve mais de 100 projetos de pesquisa básica e aplicada, mantém atualizada uma base de dados ambientais e de biodiversidade do Estado e atua em ações de conservação de espécies ambientais e usos alternativos e sustentáveis de recursos naturais.
Glayson Benke | Foto: Heverton Lacerda/Agapan
“O banco de sementes do Jardim Botânico conserva e garante a preservação de nossa biodiversidade, já que a maioria das espécies, ameaçadas de extinção, são cuidadosamente mantidas como testemunhos vivos dessa riqueza natural”, anuncia Glayson Ariel Bencke, biólogo e pesquisador do Museu de Ciências da FZB, que, ao lado do advogado Christian Ozório Kloppemburg, expuseram os riscos que os funcionários e os acervos da FZB estão expostos diante da aprovação da lei 14.982, apresentado pelo Governo Sartori, que extingue várias fundações do RS.
Com 0,04% do orçamento estadual, a FZB captou, somente no ano passado, U$ 150 milhões par ao Estado, “o suficiente para custear nossos trabalhos durante 25 anos, prestados com valores muito inferiores aos de mercado”, destaca Bencke, ao citar, como fonte de receitas, convênios com universidades, venda de publicações técnicas e científicas, produção de soro antiofídico, cursos e capacitações em educação ambiental, entre outras.

ACERVOS
Outro destaque feito por Bencke é o Zoneamento Ecológico-Econômico que, sem a FZB, custaria seis vezes mais para o Estado. “Geramos o zoneamento, lista de espécies ameaçadas, marcos regulatórios e legislações, ou seja, informações essenciais para a gestão ambiental do nosso Estado”, observa o biólogo, ao se dizer preocupado com o futuro do material genético e os acervos do Museu de Ciências Naturais, do Jardim Botânico e do Horto Florestal, cuja integridade do patrimônio de 41 hectares deve ser mantida e, para isso, “recategorizada como Unidade de Conservação, para que haja permissão de aplicação de recursos para a proteção dessa área”, defende o advogado Kloppemburg.
Junto ao Horto Florestal em Sapucaia do Sul, na divisa com a Reserva Ecológica Planície da Imperatriz, foi identificado um mato de eucalipto de grande importância histórica, ambiental e cultural, pois há espécies de eucaliptos datados de 1931, “os primeiros vindos da Austrália”, diz o advogado, ao lamentar a “mutilação de áreas de responsabilidade da FZB, sem definir limites, ferindo o artigo 225 da Constituição Federal que impõe ao Estado a responsabilidade para preservação e recuperação do ambiente para as presentes e futuras gerações”.
Entre as áreas não consideradas na Lei e no Decreto, e que integram o patrimônio natural da FZB, estão a Reserva Ecológica da Scharlau, em São Leopoldo, conhecido como Mato dos Alemães, com área cedida para a CEEE, e uma área em Candelária que, através do também extinto programa Pró-Guaíba, tinha como destino a criação de um parque paleontológico, pelos fósseis descobertos na região.

EXTINÇÃO “A FÓRCEPS
Christian Kloppemburg | Foto: Sandra Ribeiro/Agapan
Com o Decreto 53.756, de 18 de outubro deste ano, o governador José Sartori decreta a extinção da FZB, criada em 20 de dezembro de 1972, no prazo máximo de 180 dias, a partir da publicação no Diário Oficial do Estado (DOE) n.º 199, ocorrido em 19 de outubro de 2017. De acordo com o Art. 8º do Decreto, ficam declarados como integrantes do Patrimônio Ambiental do Estado do Rio Grande do Sul a serem preservados, sendo vedada destinação diversa: I - o Jardim Botânico em Porto Alegre; II - o acervo do Museu Rio-Grandense de Ciências Naturais; e III - o Parque Zoológico de Sapucaia. Parágrafo único. O patrimônio formado pelos imóveis, móveis, benfeitorias, instalações e acervo integrantes dos bens elencados nos incisos I, II e III deste artigo, cuja preservação e proteção são de interesse público em razão do valor ambiental, científico e paisagístico, passa à gestão da Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, podendo ser feita direta ou indiretamente.
De acordo com o advogado Kloppemburg, há duas ações contra o projeto de extinção, sendo uma após o Decreto e que pede a inconstitucionalidade da Lei 14.892, alegando “não ser possível destinar os acervos e as coleções cientificas da Fundação para outro ente que não seja público”, explica.
“Espero ganhar essa ação liminarmente, pois o Governo tem que proteger e recuperar, ampliar a proteção”, diz Kloppemburg, ao afirmar não ser permitido esse retrocesso na área ambiental. Segundo o advogado, a economia da demissão não vai acontecer, “caiu por terra”. Já a prerrogativa para reorganizar a gestão, que favoreceu o retorno do Governo na mesa de negociação, prevê oferecer um PDV (Plano de Demissão Voluntária), mas a Justiça do Trabalho está convicta de que não será permitida a prestação de serviços da iniciativa privada em órgãos públicos.
Sobre a liminar do ministro Gilmar Mendes, que suspende todos os processos e ações que tramitam na Justiça em relação à FZB, foi remetida para decisão do plenário do STF, ficando a ministra-presidente Carmem Lúcia a decisão de acatar, o que somente será pautado no início de fevereiro do próximo ano, avalia Kloppemburg.
O orçamento para 2018 para as seis fundações “extintas” tem chamado a atenção dos debatedores do Agapan Debate, pois “aumentou significativamente”, diz o advogado, ao anunciar a destinação de R$ 243 milhões, mais do que o dobro do aplicado em 2017, que é de R$ 112,2 milhões. “A campanha eleitoral começou, inclusive com o anúncio de que a partir de janeiro os salários dos servidores não serão mais parcelados”, atenta Bencke, ao lamentar que, “em ano eleitoral, os 28 deputados estaduais que votaram a favor da extinção das fundações estão sensíveis à pressão do Governo na negociação por cargos”, finaliza.

Professores comentam o tema em debate. | Fotos: Agapan










BANHADO EM GLORINHA SOB AMEAÇA
Leandro Martins | Foto: Agapan
Ao final do Agapan Debate, o morador de Glorinha, município da Região Metropolitana, Leandro Martins, que integra a Associação Cultural Ambientalista Prometeu Acorrentado (Acampa), solicitou apoio da Agapan e do público na defesa da Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande para a ameaça de instalação de um aterro sanitário, onde serão destinados o lixo proveniente de um raio de 150 kms, de Torres a Caxias do Sul.
“Há outros locais e Glorinha não contempla isso, até porque é alto o risco de contaminação do lençol freático, abrangendo 1 milhão e 500 mil pessoas”, calcula Martins, ao enumerar mais de 200 caminhões de lixo por dia impactando o ambiente, as estradas e a população.



Assessoria de Imprensa da Agapan
Jornalista Adriane Bertoglio Rodrigues
51-99813-1785

16 novembro 2017

Zoobotânica pode não ser extinta no governo Sartori

Foto: Darcy Campani
Confira aqui a cobertura do jornalista Cleber Tentardini sobre o Agapan Debate do dia 13 de novembro publicada no sítio de internet do jornal JÀ. 

Em breve, publicaremos o vídeo do evento. 

03 novembro 2017

A importância da Fundação Zoobotânica é o tema do Agapan Debate do dia 13 de novembro


Tribunal de Justiça mantém liminar que suspendeu o PL do arboricídio

O recurso interposto pelo líder do governo Marchezan na Câmara de Vereadores, Moisés Barboza (PSDB), para reverter a liminar que suspendeu o Projeto de Lei Complementar do Legislativo (PLCL)  008/17 foi negado pelo Tribunal de Justiça nesta terça-feira (31).
As entidades que ingressaram com a ação (Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural - Agapan, Associação Socioambientalista - Igré, Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – Ingá, e União Pela Vida - UPV) questionam a tramitação em regime de urgência pela Câmara de Vereadores, a falta de audiência pública solicitada pelas entidades, a falta de acompanhamento do Conselho Municipal do Meio Ambiente (que não teve reuniões no ano de 2017) e também destacam que a Procuradoria-Geral da Câmara de Vereadores já havia se manifestado contrariamente ao PLCL 008/17, diante de inconstitucionalidades de algumas das propostas.
Os advogados das entidades ainda não foram intimados da decisão, mas não manifestaram surpresa. "A decisão apenas garante mais esclarecimentos sobre o projeto, respeitando o direito à informação e participação”, afirma um dos advogados. Segundo os ambientalistas, ainda há questões no projeto que não foram à público, como a alteração das compensações ambientais, que deve ser melhor debatida com a sociedade.
Além de alterar a destinação dos recursos de compensações ambientais, o projeto altera as regras de supressão, transplante e poda de espécimes vegetais em Porto Alegre e, ao estabelecer prazos, retira do poder público a responsabilidade sobre o manejo de árvores e vegetações importantes para o ecossistema. Nesse ponto, cabe ressaltar que o órgão ambiental da Prefeitura se encontra enfraquecido por falta de interesse das últimas administrações municipais.



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24 outubro 2017

Entidades conseguem, através da Justiça, suspender projeto de arboricídio

Ambientalistas também questionam falta de atividade e intervenção da Prefeitura na escolha de entidades para o Conselho Municipal do Meio Ambiente.

O juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública da Capital, determinou nesta segunda-feira (23), na ação cautelar n. 9046856-11.2017.8.21.0001, a suspensão do polêmico projeto de lei (PLCL 008/17) de autoria do vereador Moisés Barboza que altera a lei de proteção da vegetação em Porto Alegre.
Na quinta-feira (19), o juiz já havia determinado, na Ação Civil Pública n. 9039978-70.2017.8.21.0001, que o Município explique o motivo de o Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) estar inativo desde janeiro, assim como a iniciativa do governo de alterar a forma de escolha das entidades ambientalistas. 
As duas ações foram propostas em conjunto pela Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (Agapan), Associação Socioambientalista (Igré), Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá) e União Pela Vida (UPV).

23 outubro 2017

Conheça a coleção 2017 de camisetas Agapan

Com foco na obtenção de recursos para construir uma sede própria, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), que desde 1971, ano de sua fundação, atua de forma 100% voluntária em defesa do meio ambiente, lançou uma nova linha de camisetas temáticas. São cinco modelos em diversas cores e tamanhos. Confira.



O valor de cada camiseta, que pode ser adquirida nos vários espaços onde a entidade realiza suas atividades (fique atento no Facebook), é de R$ 50,00. Os associados, que já contribuem anualmente com a entidade, podem ter desconto de 20%.

Adquira a sua e nos ajude a angariar recursos para construir a nossa sede e fortalecer as atividades em defesa do ambiente natural.


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26 setembro 2017

Agapan entrega prêmio em homenagem póstuma a Professor Lewgoy


Na primeira edição do Prêmio Agapan de Ecologia, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) entregou o troféu Padre Balduíno Rambo aos familiares do geneticista e ambientalista Professor Flávio Lewgoy (1926 - 2015).


 Entrevista concedida à historiadora
Naida Menezes/Ufrgs
.
"O ecologista Flávio Lewgoy foi um ser humano maravilhoso e exemplar, uma pessoa que viveu com a máxima intensidade o lema da Agapan, “A Vida Sempre em Primeiro Lugar”. 

Leia mais aqui sobre o texto escrito pelo amigo amigo e também ex-presidente da Agapan Celso Maques sobre o homenageado.

A homenagem foi realizada na noite desta segunda-feira (25/09) no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, durante a VII Mostra Científica Anchietana, que divulga até quarta-feira (27/09) 39 trabalhos científicos dos alunos. Durante a Mostra, a Agapan vende livros e canecas, arrecadando recursos para a instituição, cuja atuação, desde sua fundação, em abril de 1971, é 100% voluntária.

“O sonho deste prêmio se realiza”, destaca, emocionado, o presidente da Agapan, Francisco Milanez, ao agradecer à gestão anterior da entidade, que iniciou o Prêmio, e à artista plástica Zorávia Betiol, que idealizou o troféu. Ex-anchietano, Milanez falou do legado que o Professor Lewgoy deixou para a ciência e para a ecologia, “mantendo a curiosidade que o atualizou em diversos temas até o final de sua vida”, disse.

Representando a família Lewgoy, os filhos Bernardo, Henrique e Suzete receberam o troféu idealizado por Zorávia. Orgulhoso, Bernardo ressaltou que seu pai aliou ética e ciência, lutas e ideais, e que deixa o legado do protagonismo ambiental desde os anos 70, quando ingressou na Agapan, mantendo a luta contra o carvão, as termelétricas e os transgênicos e defendendo a redação e aprovação da primeira lei brasileira contra os agrotóxicos, uma referência ao país. “Ao final da vida, nosso pai acompanhava com preocupação os retrocessos ambientais e o aquecimento global, sendo um exemplo de luta, cidadania e de valorização do conhecimento”, disse Bernardo.

Autora da obra, Zorávia avalia que “às vezes o artista programa algumas características e aparecem outras depois”. Segundo ela, “este troféu está iluminado pelas cores verde e amarelo, o que dá para associar à pessoa iluminada científica e espiritualmente como foi o Padre Balduíno Rambo e também o homenageado Professor Lewgoy, por sua grandeza de caráter”. E finaliza dizendo que “o verde é esperança, é renovação, e nesse sentido permite várias associações”.

No início da solenidade, o irmão de Padre Balduíno Rambo, o professor Arthur Rambo, defendeu o permanente estudo da natureza, “extremamente importante para a vida, por ser onde estamos inseridos”, citando o Papa Francisco, com sua Encíclica sobre o Meio Ambiente, “na qual considera a natureza nossa casa, nossa querência, e seu irmão, Padre Rambo que, sentado à beira do precipício do canyon Fortaleza, nos Aparados da Serra, defendeu que a natureza não é só ciência, mas humanismo, considerando a natureza, como Albert Einstein considerou, mãe e pátria aqui na terra”.

Sem data definida, a próxima edição do Prêmio Agapan de Ecologia, troféu Padre Balduíno Rambo, homenageará personalidades, projetos, indivíduos ou instituições que expressam, nos conjuntos de suas ações, importantes contribuições ecológicas para a nossa sociedade.

Assessoria de Imprensa da Agapan
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21 setembro 2017

Porto Alegre abate dez árvores por dia

Neste Dia da Árvore, queremos comemorar a existência desses seres essenciais à vida. Mas também deixamos nosso registro de tristeza e denúncia ao verificar que a cada dia são cortadas, em média, 10 árvores em Porto Alegre. Foram mais de 30 mil árvores suprimidas nos últimos dez anos, 3.575 somente em 2016. É uma lástima que a nossa sociedade e, principalmente, o poder público municipal ainda não percebam a importância da arborização urbana, bem como a necessidade de ampliar a permanência das árvores em nosso dia a dia. Outra aspecto que muito nos deixa tristes são as podas mal feitas que mutilam e levam nossas árvores a adoecerem e, aos poucos, desaparecerem.
A primeira grande luta da Agapan foi justamente para acabar com as podas indiscriminadas, que impediam nossas árvores de dar flores, deixando a cidade cinza. A luta da Agapan não foi em vão. Aos poucos, Porto Alegre foi transformada na capital mais arborizada do Brasil, posição que durou por muitos anos. Infelizmente, com a complacência de várias gestões municipais incapazes de perceber o vital serviço ambiental fornecido pelas árvores, esse cenário está regredindo e Porto Alegre corre sério risco de voltar a ser cinza e adoecer. 

Estamos atentos e continuaremos lutando, com apoio de parte da sociedade consciente, para que a nossa cidade volte a florescer, transformando-se em uma grande e gigantesco canteiro urbano de árvores para melhorar a qualidade de vida da nossa comunidade.   



Nesse sentido, diante desses ataques crescentes das motosserras, estamos lançando a página Arboricídio Poa. Ela ficará disponível no blog da Agapan com informações sobre o avanço dos cortes de árvores em Porto Alegre, que, no ritmo atual, corta aproximadamente dez árvores por dia, infelizmente.

Até hoje (21/09), conforme projeções com base na média anual dos últimos dez anos, 2.640 árvores já foram cortadas neste ano de 2017.

Precisamos mudar isso.

Imagem: Internet. Colaboração da associada Lourdes

17 setembro 2017

Prefeitura corta mais de 3 mil árvores por ano em Porto Alegre

A média anual de cortes aumentou a partir de 2012, quando empresas terceirizadas começaram a fazer remoções.
Corte realizado em 2013 próximo à Câmara de Vereadores de Porto Alegre após ativistas serem retirados à força do local 



No quinquênio 2007/2011 a média anual foi de 2.419 remoções de árvores na capital gaúcha, totalizando 12.095 cortes no período. No quinquênio seguinte, 2012/2016, a média anual subiu para 3.913 remoções. Nestes últimos 5 anos, a Prefeitura de Porto Alegre cortou, diretamente ou através de terceirizadas, 19.569 árvores. Na comparação entre os dois períodos (quinquênios), o número de remoções de árvores aumentou mais de 60 %.

Entre 2007 e 2016, foram suprimidas 31.664 árvores e removidos 9.231 troncos, somando mais de 40 mil remoções de vegetais. Somente em 2016, foram 3.575 árvores cortadas e 809 troncos removidos. A compensação foi de apenas 1.472 mudas. Os dados foram coletados pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam).
Segundo o biólogo Francisco Milanez, presidente da Agapan, apenas 30% das mudas plantadas sobrevivem, em média, em Porto Alegre em função de vandalismo, falta de rega, entre outros fatores. Ele explica que, por exemplo, para compensar os serviços ambientais de um Jacarandá (filtragem do ar, absorção de ruídos e poeiras, climatização do ambiente, fornecimento de sombra, entre outros) seria necessário plantar mil mudas da mesma espécie. Considerando o baixo índice de sobrevivência das mudas (30%), para compensar um vegetal adulto seria necessário plantar três mil mudas. Milanez ressalta que essa conta é válida no momento da plantação, quando o vegetal jovem tem massa muito inferior à do vegetal adulto. 

Para o ex-secretário da pasta de Meio Ambiente de Porto Alegre Beto Moesch, conselheiro da Agapan, que em 2007 comandou o plantio de 19.740 mudas, diante do abate de 2.393 árvores no mesmo ano, os números de 2016 mostram que a Prefeitura não está cumprindo a política ambiental brasileira referente às normas de compensação ambiental. “Porto Alegre, conforme apresentado, não está atendendo aos princípios do meio ambiente para garantir o equilíbrio ecológico”, afirma, referindo-se ao artigo 225 da Constituição Federal e aos códigos estaduais de meio ambiente e florestal. O ex-secretário, que é professor de Direito Ambiental, também ressalta que o plantio compensatório deve ter um número bem superior à quantidade de cortes. 

Projeto apresenta perigo ao permitir que o poder público terceirize decisão sobre podas

Podas mal feitas podem condenar uma árvore à morte. Quando o vegetal é podado de maneira errada, propositalmente ou por falta de conhecimento técnico, pode apodrecer, ser contaminado por fungos ou até quebrar facilmente. Um exemplo visível a todos em Porto Alegre são as podas feitas pelas companhias de energia elétrica em função dos fios de luz que passam sobre algumas árvores, que ficam em formato de “Y” ou forquilha, podendo perder o equilíbrio e quebrar facilmente com ventos fortes.

Com a desculpa de que a Prefeitura de Porto Alegre não tem a agilidade necessária para suprir as demandas por podas na Capital, o vereador Moisés Barboza (PSDB) apresentou o projeto (PLCL 008/17) que altera a Lei Complementar nº 757, de 14 de janeiro de 2015, para que os serviços de podas sejam autorizados por particulares. A proposta foi discutida no dia 12 de setembro na na Frente Parlamentar de Empreendedorismo e Desburocratização da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Chama a atenção, entre outros aspectos, neste caso, o interesse de uma frente parlamentar que trata do “empreendedorismo”. Cabe ressaltar que são exatamente os interesses políticos partidários aliados aos interesse de empresas que estão sendo investigados por corrupção no Brasil. Nesse sentido, é natural que essa questão seja motivo de atenção redobrada.

Em relação aos aspectos ecológicos desta proposta, a preocupação da Agapan está relacionada às facilitações que podem ocorrer para as podas serem executadas por empresas desqualificadas sem acompanhamento técnico adequado e os desdobramentos que podem resultar na diminuição ainda maior de árvores em Porto Alegre. “O projeto é frágil, pois não dá garantias de quem vai fazer, efetivamente, a fiscalização dos cortes e podas”, afirma a conselheira e ex-presidente da Agapan, Edi Fonseca.

O ex-secretário de Meio Ambiente Beto Moesch ressalta que “a responsabilidade pelas questões ambientais é do poder público, e que casos emergenciais podem continuar sendo tratados pelo Corpo de Bombeiros”.

Já o presidente da Agapan, Francisco Milanez, entende que “os prazos precisam ser cumpridos pela Prefeitura, mas jamais o poder público deve liberar para que a decisão seja tomada pela iniciativa privada”.

Imprensa Agapan
Jornalista Heverton Lacerda

12 setembro 2017

Movimento ambientalista recorda história e projeta o futuro da luta ecológica

Alvo de espionagens e ataques de "ecopornografia", que permearam a história da luta ambientalista gaúcha, o futuro do ativismo ecológico e seus reflexos no rumo da nossa sociedade foram pautas do Agapan Debate realizado nesta segunda-feira (12) em Porto Alegre.  


Elenita, à esquerda, Milanez, ao centro, e Belmonte, à direita na mesa.


Para tratar sobre o histórico do movimento ambientalista do RS, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) trouxe de Santa Catarina a professora e pesquisadora gaúcha Elenita Malta Pereira, doutora em História pela Ufrgs e autora de "Roessler: O homem que amava a natureza" (2013) e "A conquista da cidadania: Movimentos sociais na história do Brasil" (2015). Com a mediação do presidente da Agapan, Francisco Milanez, Elenita apresentou uma detalhada linha do tempo sobre o surgimento da luta ambiental no Rio Grande do Sul, que em 1971 culminou com a fundação da Agapan. Elenita ressalta
Elenita Malta Pereira
que a Associação foi criada por José Lutzenberger e Augusto Carneiro, ao lado de outros parceiros, em um contexto social imerso nos regramentos impostos pela ditadura militar. Durante a Assembleia Geral de Fundação da Agapan, realizada no dia 27 de abril de 1971, Lutz (como passou a ser conhecido Lutzenberger) proferiu a palestra “Por uma ética ecológica”, publicada posteriormente no jornal Correio do Povo em 29 de agosto de 1971. “Agapan não chegou a sofrer uma repressão de fato, mas era vigiada por agentes do governo”, informou a historiadora. O suposto salvo conduto tinha como principais razões a amizade de Lutz com o almirante Luis Belart e o fato de a luta ecológica não ser vista como uma “ameaça comunista”.
Além do precursor Henrique Luis Roessler (1896-1963), Elenita também registrou a influência de Padre Balduíno Rambo (1906 - 1961), autor de A Fisionomia do Rio Grande do Sul, no surgimento do movimento ecológico. Em 2016, Rambo foi homenageado pela Agapan com a inclusão de seu nome no troféu que a entidade entregará no dia 25 de setembro deste ano (2017) ao vencedor do Prêmio Agapan de Ecologia. A cerimônia será realizada no colégio Anchieta às 19h.
Entre os diversos recortes de jornais apresentados pela pesquisadora, destaques para as lutas da Agapan em defesa da arborização, contra os agrotóxicos e a poluição gerada pela fábrica de celulose Borregaard (atual CMPC), localizada na cidade de Guaíba, às margens e sempre poluindo o rio Guaíba. O lançamento do Manifesto Ecológico, a promulgação da Lei 7747/1981 (Lei ambiental), e a tragédia conhecida como maré vermelha, considerada uma das mais impactantes do RS, também foram relembradas, assim como a fundação da Cooperativa Ecológica Coolméia e a criação da Feira dos Agricultores Ecologista, esta última uma conquista do movimento ambiental que permanece forte e tem sido cada vez mais valorizada pela população que já compreende a importância de uma alimentação saudável, sem agrotóxicos e que ainda promove uma dinâmica de produção social mais justa, limpa e ecológica.
Elenita é editora do blog  A voz da Primavera. Da mesma forma que o palestrante que deu sequência ao debate do dia 11, a pesquisadora reconhece na comunicação uma ferramenta importante para fortalecer a luta ambiental. Ela lembra que Lutz utilizava o termo “ecopornografia” para se referir às propagandas pagas pelas empresas poluidoras para melhorar a imagem de venenos e projetos maléficos à sociedade. Nos dias atuais essa prática continua sendo muito utilizada no que se conhece pelo termo em inglês Greenwashing, técnicas de marketing empregadas para encobrir os malefícios causados por determinadas operações e para criar uma imagem (falsa) positiva de suas atuações. Outra estratégia de empresas poluidoras, como a CMPC (antiga Borregaard), é a intensa compra de espaços em jornais, revistas e apoios a projetos sociais com o objetivo único de gerar uma falsa sensação de inserção e serventia social. Com essa prática, a empresa cala jornais e jornalistas, que optam pelo valor econômico da questão em detrimento da cobertura jornalística de interesse social. Outro exemplo, que não foi citado por Elenita, é a opção que a indústria chilena CMPC fez na escolha do nome da planta de Guaíba para induzir o sensação de inserção social: Celulose Riograndense, como se fosse, de fato, um empreendimento gaúcho.
Roberto Villar Belmonte
O jornalista e professor universitário Roberto Villar Belmonte, que há mais de duas décadas atua no movimento ambientalista, falou sobre os desafios do ambientalismo no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo em que atua em pesquisas na área de Comunicação Social junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Belmonte ministra a disciplina de Jornalismo Ambiental no Centro Universitário Ritter dos Reis (Uniritter).
Na palestra que proferiu no Agapan Debate nesta segunda-feira, Belmonte posicionou sua análise em quatro aspectos: comunicação, articulação, formação e financiamento.
Ele ressaltou que a “Comunicação não é apenas transmissão de informações”. Segundo o professor, “a construção de sentido se dá na interação entre pessoas”.
O palestrante destacou que, no contexto atual de “transição de um mundo analógico para um mundo digital”, a luta ecológica encontra uma sociedade atrelada ao entretenimento. Ele relaciona e classifica os diferentes níveis de acesso às informações nos conceitos amplos de sociedade da informação, sociedade do conhecimento e sociedade do entretenimento, este último um grande desafio para a comunicação do movimento ambientalista por se tratar de um segmento social amplo e que apresenta maior dificuldade para atentar-se aos temas ambientais quando abordados de formas mais profundas e complexas. Neste ponto, foi possível perceber uma convergência com o sentido do termo “ecopornografia” referido por Elenita. “A indústria busca capturar a bandeira ambiental”, afirmou o Belmonte. O pesquisador também destaca que a indústria domina a comunicação, em função do grande aporte financeiro. Aos movimentos sociais, resta encontrar alternativas mais criativas para continuar na briga, através de atuações voluntárias, como já é tradicional, ou encontrando novas formas para fortalecer o tão importante ativismo ecológico.
Em relação à formação, o palestrante destacou a importância de realizar campanhas de novos sócios para apoiarem e atuarem nas entidades ambientalistas, projetos permanentes de educação, aproximação com universidades e formação de novas lideranças.  
Belmonte também falou sobre os desafios de financiamentos de projetos em relação à necessidade de manter a autonomia do movimento ambiental.
A reflexão sobre essa questão justifica-se e tem grande importância dentro de um contexto no qual indústrias e grandes empresas poluidoras buscam cooptar lideranças do movimento ambiental para atuarem em conjunto com suas marcas, seduzindo com montantes financeiros aplicados à projetos que pouco ou nada somam à efetiva luta pela preservação do ambiente natural.
“Quem paga a conta?” e “Por quê?”. Com essas duas questões, o professor e ambientalista encerrou sua palestra, deixando para o grupo de participantes que acompanhou o Agapan Debate a partir da plateia do auditório da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, jovens lideranças e ambientalistas com longa data no movimento, importantes pontos para serem refletidos e debatidos na sequência.
Fonte: Imprensa Agapan


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O desafio do Movimento Ambientalista Gaúcho (Uniritter) Parabéns ao professor Roberto Villar Belmonte e seus alunos vencedores do Prêmio José Lutzenberger de jornalismo 2010!