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Uma reflexão sobre o ambientalismo e a Agapan

Zoravia Bettiol*



Meu pai, Sigefrido Bettiol, professor e advogado, com sólida formação humanista, transmitiu com muito entusiasmo e carinho os conhecimentos relacionados à natureza e a justiça social para mim e meus irmãos, que foram marcantes na minha formação como cidadã e artista visual. Portanto, os temas ecológicos começaram a aparecer na minha exposição individual “Verde que te quiero verde” composta por desenhos, textos de ambientalistas e uma instalação, uma das primeiras a ser realizada em Porto Alegre, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), em 1979.


Foi muito natural, também, meu interesse em me associar, em meados de 1980, à Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e logo em seguida, na Associação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG). Foi nessa época que conheci José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Flávio Lewgoy, Caio Lustosa, Magda Renner e Giselda Castro.

Os contatos com essas e outras pessoas das quais não me recordo o nome, foram muito valiosos para que eu adquirisse maior conhecimento, recebesse mais informações e participasse de ações em defesa do ambiente natural, ou seja, subsídios sólidos para realizar minhas obras relacionadas ao ambientalismo.


Tenho duas lembranças muito significativas relacionadas às duas associações acima mencionadas. Já associada à Agapan, uma noite cheguei antes do início de uma assembleia e, falando com Augusto Carneiro, lhe perguntei como foi que ele começou a se interessar pela ecologia? Respondeu que a culpa era do meu pai, que ensinava geografia com paixão, ressaltando a beleza da natureza e já esboçando princípios que, mais tarde, foram básicos no ambientalismo. Em seguida, ele me devolveu a pergunta e eu lhe disse que a “culpa” também era do meu pai, que despertou em mim o amor e respeito pela natureza.


Outro fato marcante, no final dos anos de chumbo, ocorreu em uma manifestação ecológica da ADFG entre os prédios do Memorial do Rio Grande do Sul e do MARGS. Eu apresentava uma pintura em papel de um metro de altura relacionada aos problemas ambientais do Brasil. Junto de Magda e Giselda, éramos cerca de dez mulheres, sendo que uma carregava um bebê de colo. Haviam mais de 20 brigadianos para nos policiar e, se necessário, reprimir, além de jornalistas. Porém, esse importante acontecimento jamais foi noticiado na mídia escrita ou falada da época.


Tenho 85 anos e em 65 anos dedicados às artes visuais. Ao longo do tempo, pude observar que ela se diversificou muito em técnicas e em temas, mas a ecologia sempre esteve e continuará presente em minhas manifestações artísticas, quer como forma de denúncia de seus graves problemas, quer enaltecendo a beleza e singularidade dos ecossistemas que tenho expressado em séries de arte têxtil, de gravuras, de jóias e em instalações, coletivas e individuais.


Vivi 15 anos fora do Rio Grande do Sul, em São Paulo e São Francisco, na Califórnia. Retornei novamente no ano 2000 à minha Porto Alegre. Logo me envolvi com o grupo de pessoas preocupadas com os problemas da orla do Guaíba e com um projeto de construção de edifícios no Pontal do Estaleiro Só. Com esse contato, reencontrei pessoas da Agapan, como Sandra Mendes Ribeiro, Edi Fonseca, Sílvio Nogueira, Cesar Cardia, entre outros aguerridos militantes, como Anadir Alba, do Movimento Defenda a Orla.


Muitos coletivos atuaram à época. Porém, o único coletivo que permaneceu organizado e solidificou-se foi o que pensou e planejou a criação do Museu das Águas de Porto Alegre. Coordenei, juntamente com Luis Antonio Timm Grassi, esse qualificado grupo multidisciplinar. Infelizmente, por inúmeras razões, jamais concretizou-se o projeto físico do Museu. Entretanto, produzimos uma publicação bastante elaborada do escopo do referido projeto e, caso no futuro haja interesse político, esta publicação poderá ajudar a construção física do Museu das Águas.


No contato com a Sandra, Edi, Sílvio, Cesar Cardia entre outros associados da Agapan que passei a conviver, voltei a frequentar as reuniões da entidade. Em 2009, fui convidada a fazer parte do conselho superior da Agapan na gestão do presidente Eduardo Finardi. Continuo participando desse colegiado até hoje. Acompanhei, ao longo desses últimos anos, as gestões dos presidentes Alfredo Gui Ferreira, Leonardo Melgarejo e Francisco Milanez, que voltou presidir a Agapan.


Aprendi e continuo aprendendo muito com meus pares de Conselho ou fora dele. Fico feliz por ter conhecido colegas como Ana Valls, Beto Moesch, Celso Marques, Alfredo Gui Ferreira, Roberto Rebes, Heverton Lacerda, Darci Campani entre outros colegas que aprendi a conhecer e admirar.


É impressionante que essas diretorias têm enfrentado muitíssimas lutas aguerridas contra as muitas arbitrariedades, retrocessos, desmontes e crimes ambientais que ocorrem nas esferas governamentais e empresariais.


Há anos existe o Agapan Debates, evento histórico que tem trazido palestrantes das mais diversas áreas para discutir e apresentar soluções para os mais diversos assuntos.

Minha atuação na Agapan é sempre relacionada à arte. Em 2016, organizei com Roberto Rebes Abreu e André Venzon, a exposição “É VIDA! AGAPAN - 45 anos”, que foi realizada no MARGS e contou com generosa doação de obras de cerca de 100 artistas, sendo que a venda das obras, realizada posteriormente na galeria Zoravia Bettiol, foi totalmente revertida em benefício da Agapan.


Também em 2016, a Agapan instituiu o Prêmio Agapan de Ecologia, com o "Troféu Padre Balduíno Rambo". Essa premiação é outorgada pela entidade a cada dois anos. Fui incumbida de criar o troféu, que foi concebido em acrílico colorido, para ser doado a personalidades que se distinguiram na luta e na preservação do meio ambiente.


A primeira premiação foi "in memoriam" ao ex-presidente, professor químico e geneticista Flávio Lewgoy. O Troféu Padre Balduíno Rambo foi entregue aos filhos do homenageado. O segundo a receber a premiação foi o engenheiro agrônomo, Sebastião Pinheiro, cuja atuação dentro da Agapan, bem como nacional e internacionalmente, é referência em agroecologia. Lamentavelmente, com a pandemia há mais de um ano, ainda não foi possível dar sequência às premiações.


Entre as minhas atuações na Agapan, destaco 2018, quando lutamos contra a modificação da lei das podas e supressões de árvores. Porém, com toda a nossa manifestação, a referida modificação na lei aconteceu. Porto Alegre ficou ainda mais vulnerável aos cortes e às podas indiscriminadas de suas árvores.


Naquele momento também batalhamos, juntamente com moradores de Ipanema e da Zona sul, contra o Loteamento Ipanema, ao lado do Clube do Professor Gaúcho, onde uma grande área rica em biodiversidade de mata e fauna nativas estavam na iminência de serem devastadas por edificações. A proporção do nefasto projeto ameaçava dividir a sede do próprio Clube do Professor, visto que a previsão do projeto viário, abriria duas ruas que cortariam o terreno do clube.


Com todas essas ameaças ao ambiente natural daquela maravilhosa região de Porto Alegre, criei um grupo de colegas da Agapan e de outras entidades parceiras, para confeccionar chapéus, ponchos, cartazetes e faixas para manifestações na Câmara de Vereadores, na Assembleia Legislativa e, também, para passeatas na Orla Ipanema.


Já havia criado, antes, um banner com a frase do escritor Carlos Urbim “Parem de ameaçar o Guaíba!”, usado em diversas manifestações em nossa Orla, visto que ela continua ameaçada pela construção civil . Porém, continuamos alertas e atentos lutando por esse patrimônio público e belo que pertence a toda a comunidade porto-alegrense, gaúcha e que encanta os turistas que chegam à nossa capital.


Ressalto, também, que a festa em comemoração dos 48 anos da Agapan foi realizada na minha galeria. A celebração deu-se em ambiente leve, aconchegante e muito concorrido! Senti muito prazer em compartilhar a galeria com tantas pessoas queridas e engajadas na luta ambiental.


No dia 27 de abril de 2021, foram comemorados os 50 anos da Agapan em uma live conduzida pelo atual presidente, Francisco Milanez, pelo vice-presidene Heverton Lacerda e pela ex-presidente Edi Fonseca, que presidiu a Agapan em cinco gestões. Foi passado um vídeo relembrando os momentos marcantes da trajetória da entidade cinquentenária.


Posteriormente, depoimentos de ex-presidentes, ambientalistas atuais e representados (filhas de José Lutzenberger e Augusto Carneiro), de representantes de instituições, bem como por diversos segmentos da sociedade nos deixaram muito emocionados. Uma interminável quantidade de pessoas que construíram, com muita competência, generosidade e amor, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). A cerimônia, apesar de ocorrer de forma virtual, foi muito linda, comovente e inesquecível.


Tanto a live quanto o relato, acima são o reconhecimento do trabalho dedicado e voluntário de todos (as) que atuaram pela Agapan nesse meio século de existência.

Vida longa à Agapan!


*Artista plástica, arte educadora e conselheira da Agapan


Este artigo reflete a opinião do autor, não necessariamente da Agapan.


Associados podem submeter artigos para publicação através do e-mail agapan@agapan.org.br.