Arborização em Porto Alegre: gestão pública falha e aprofunda crise ambiental urbana
- Susiani Silva Guisolfi
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Atualizado: há 3 dias
Por Susiani Silva Guisolfi
Em uma cidade que em 2024 atravessou a maior tragédia climática de sua história, a manutenção adequada de suas árvores deveria ser prioridade absoluta, mas no entanto, em Porto Alegre, o que se observa é o oposto: falhas de gestão, planejamento desatualizado e práticas que, segundo especialistas, agravam, e não mitigam, os impactos ambientais.
A enchente de maio não foi apenas um desastre natural. Foi também um alerta contundente sobre os limites de um modelo urbano que reduz áreas verdes, impermeabiliza o solo e negligencia a infraestrutura ecológica da cidade.
Podas que matam, não cuidam

Para a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), a situação da arborização urbana é crítica, e parte significativa do problema está na forma como a Prefeitura conduz o manejo das árvores. O diretor científico, Francisco Milanez, é direto:
“As podas estão sendo feitas de forma inadequada, em época inadequada, inclusive em período de reprodução de aves, destruindo ninhos”, lamenta.
Segundo ele, o problema não é pontual, mas sistêmico. Podas radicais e tecnicamente equivocadas estariam comprometendo a saúde das árvores e criando um ciclo contínuo de problemas, já que árvores mal conduzidas exigem mais intervenções futuras, muitas vezes ainda mais agressivas.
Além disso, há um efeito perverso: árvores que já estavam adaptadas à infraestrutura urbana passam a gerar novos conflitos após intervenções mal planejadas.
“É feito para gerar problema”, resume.
As consequências vão além da estética: cortes mal executados facilitam a ocorrência de pragas, fungos e processos de apodrecimento, levando à morte precoce de árvores que poderiam permanecer saudáveis por décadas.
Terceirização sob suspeita
Outro ponto central da crítica recai sobre o modelo de terceirização do serviço. Para Milanez, a lógica contratual baseada em volume de serviço, e não em qualidade técnica, cria incentivos distorcidos:
“A empresa terceirizada ganha por poda. Então, quanto mais podam, mais ganham”, ressalta.
Nesse modelo, a árvore deixa de ser um patrimônio a ser preservado e passa a ser tratada como objeto de intervenção recorrente. A rotatividade de equipes e a falta de formação continuada também dificultam a construção de conhecimento técnico consistente.
Prefeitura reconhece limites, mas não responde à altura
Entramos em contato com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre (Smamus), que afirma seguir critérios técnicos e a legislação vigente, incluindo restrições à poda durante períodos reprodutivos da fauna.
Na prática, porém, os relatos de campo e as críticas de especialistas colocam em dúvida a efetividade dessa fiscalização. Embora a legislação exista, a aplicação parece falhar, seja por falta de estrutura, seja por fragilidade na supervisão dos serviços executados.
A própria Prefeitura admite um problema estrutural: o Plano Diretor de Arborização Urbana está desatualizado há quase duas décadas, datado de 2006, com previsão de revisão apenas para 2026.
Em um contexto de emergência climática, manter uma cidade operando com um plano defasado por 20 anos não é apenas um atraso, é uma escolha política.
O presidente da Agapan, Heverton Lacerda, no entanto, não concorda com a argumentação da Prefeitura. Segundo o ambientalista, esse é um argumento utilizado pela atual administração pública para justificar a falta de cuidados com o ambiente natural da cidade. "Na verdade, a Prefeitura tenta esconder a falta de cuidado adequado com as árvores atrás do Plano Diretor, o que não procede na prática", afirma. Lacerda vai além. Ele diz que "os políticos que estão à frente do Paço, em conjunto com a base parlamentar governista, utilizam discursos com inverdades para promover as alterações que agora privilegiam a especulação imobiliária no novo Plano Diretor de Porto Alegre".
Plantar não compensa remoções
Outro ponto que expõe a fragilidade da política atual é o descompasso entre supressão e reposição de árvores. Embora o município estabeleça metas anuais de plantio, Milanez alerta que o discurso da compensação é enganoso.
“Mil árvores pequenas não substituem uma árvore grande”.
Árvores adultas desempenham funções ambientais complexas, regulação térmica, retenção de água, suporte à biodiversidade, que levam décadas para serem replicadas.
Ainda assim, a cidade segue permitindo a perda de cobertura vegetal em ritmo preocupante.
Desigualdade ambiental invisibilizada
A crise da arborização também revela uma dimensão social frequentemente ignorada. Segundo Milanez, bairros mais pobres concentram menor cobertura arbórea, justamente onde os impactos do calor são mais intensos.
“Os que mais precisam são os que menos têm”.
Apesar de a Prefeitura afirmar que prioriza áreas com menor cobertura vegetal, os resultados ainda são insuficientes frente à urgência climática e à desigualdade territorial.
Um modelo de cidade que remove o verde

O problema não se limita à gestão das árvores existentes. Ele se conecta diretamente ao modelo de desenvolvimento urbano adotado na cidade.
A supressão de áreas verdes para dar lugar a empreendimentos imobiliários, como no caso da Floresta do Sabará, reforça um padrão de ocupação que prioriza o curto prazo em detrimento da resiliência urbana.
Menos árvores significam: mais calor, mais escoamento superficial de água, maior risco de enchentes e pior qualidade de vida.
Falta de transparência e participação efetiva
Embora existam canais formais, como o 156, para solicitações e denúncias, o diretor da Agapan aponta que a participação social ainda é limitada na prática. A ausência de dados amplamente acessíveis e atualizados sobre arborização, como um inventário completo e público, dificulta o controle social e a avaliação das políticas adotadas.
A urgência de mudar a lógica
A arborização urbana não pode seguir sendo tratada como um tema secundário ou operacional.
Em uma cidade cada vez mais exposta a eventos extremos, árvores são infraestrutura, tão essenciais quanto drenagem, energia ou mobilidade.
O que Porto Alegre enfrenta hoje não é apenas um problema de gestão de árvores. É um sintoma de uma política urbana que ainda não compreendeu que enfrentar a crise climática exige preservar e expandir a natureza dentro da cidade.
E, nesse cenário, a omissão custa caro.




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