• Heverton Lacerda

A máscara da resiliência



Colocaram lenha na fogueira e continuam alimentando o fogo. O clima está esquentando e as previsões, segundo o professor de Climatologia da Ufrgs Francisco Aquino, é que o aquecimento global seja ampliado nos próximos anos, trazendo mais eventos severos como o que ocorreu em Porto Alegre em 29 de janeiro.


Há meio século, ao menos, os avisos sobre a interferência das atividades humanas no clima do Planeta já chamavam a atenção para o que está ocorrendo hoje. Mas, seguindo uma lógica que se negava - e ainda se nega - a rever o atual modelo de desenvolvimento mundial, muitos desses avisos foram desprezados, até ridicularizados. Mais 50 anos serão necessários para que essa situação se reverta, “se iniciarmos o processo ainda hoje”, disse o Dr. Aquino na audiência pública realizada no dia 5 de maio na Assembleia Legislativa do RS. Mas o fato mais alarmante é que daqui a 20 anos os eventos climáticos extremos estarão mais frequentes e catastróficos aqui no Rio Grande do Sul. Não se trata de simples alarmismo, da mesma forma que não era há cinquenta anos.


Muito já foi dito sobre o fato de serem os mais pobres os que mais sentiriam os impactos das mudanças climáticas, visto que têm menos recursos econômicos para se protegerem. É nesse ponto que entra a nova onda que vem sendo utilizada para mascarar o problema e aparentar proatividade política: o nome pomposo é “Resiliência”. Na verdade, não passa de um aviso de “aguenta as pontas, porque seguiremos poluindo e aquecendo o planeta”. Ou seja, para não mudar o atual modelo social ecocída, criam subterfúgios eufemísticos, apostando, como sempre, que o povo é bobo e vai continuar sendo iludido com discursos limpos e ações sujas. Uma das grandes incentivadoras dessa estratégia global de “Cidades Resilientes” é a Organização das Nações Unidas, que afirma em seu Guia para Gestores Públicos Locais: “Climas extremos e alterados, terremotos e emergências decorrentes da ação humana estão crescentemente pressionando as pessoas e ameaçando a prosperidade das cidades”. Temos que mudar esse sistema social injusto e perverso, sob o risco de vivermos sempre curvados aos interesses das elites econômicas mundiais.


Heverton Lacerda - jornalista e secretário-geral da Agapan Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo


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