20 maio 2020

ARTIGO | Os guardiões da biodiversidade

Por Ulrike Prinz*

Os povos indígenas da Amazônia veem-se a si mesmos como guardiões da floresta. Eles têm sido bem sucedidos no que outros tem falhado: incrementando a diversidade dos ambientes naturais. Então, o que podemos aprender deles? 

Esta próspera diversidade se revela propensa a se tornar monocultura tão logo os humanos entram na cena, como se fosse uma lei da natureza. Não levou muito tempo para que os ancestrais dos Maori, por exemplo, eliminassem os grandes predadores da Nova Zelândia assim que se estabeleceram na ilha. 

Por outro lado, a Roma Antiga demandou tanto material para construção que todas as árvores dos arredores da cidade foram logo cortadas. Atualmente, a floresta da Bioalowieza localizada na Polônia, uma das florestas primitivas mais antigas da Europa, encontra-se ameaçada de se tornar a próxima vítima da indústria madeireira.

Menina do povo Marubo abre uma fruta de ingá - Aldeia Rio Novo, médio Rio Ituí, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas, 2014 | Foto: Barbara Arisi/Creative Commons/Agapan


Biodiversidade 

Entretanto, isto não é uma lei da natureza. Vários exemplos de outras regiões do mundo demonstram uma abordagem diferente da natureza. 

Os povos indígenas da Floresta Amazônica servem como um excelente exemplo, especialmente considerando que eles entendem seu papel como como “guardiões da floresta”. 
Como eles lidam com a diversidade? Será possível utilizar o conhecimento que estas e outras comunidades indígenas têm adquirido sobre seu ambiente em outros campos e para outros propósitos? 

A perda de biodiversidade avançará de mãos dadas com outras consequências catastróficas das mudanças climáticas, advertiu,em maio de 2019, Robert Watson, presidente do Conselho Mundial de Biodiversidade das Nações Unidas (Plataforma Intergovernamental Científico-normativa sobre Diversidade Biológica e Serviços dos Ecossistemas – IPBES). 

A biodiversidade e um redemoinho de problemas: nosso planeta perdeu aproximadamente a metade de todos os seus ecossistemas naturais nos últimos 40 anos, enquanto o consumo de recursos naturais aumentou ao dobro nesse mesmo período. Se não formos capazes de mudar esse curso, uma de cada oito espécies de plantas e animais do mundo irá desaparecer nos próximos anos, segundo o Relatório de Avaliação Global do Conselho Mundial de Biodiversidade IBPES (2009). 

Numa época em que as pessoas começam a falar sobre a sexta extinção em massa da Terra, estamos, sem dúvida, sendo confrontados com uma necessidade urgente reagir. 


Humanidade 


Como acabam de mostrar estudos arqueológicos feitos na bacia do rio Amazonas, o mito do suposto inevitável impacto destrutivo do Homo sapiens pode não ser totalmente correto. A surpreendente biodiversidade local que conhecemos hoje, como descobriram os escavadores, é também resultado das atividades humanas. 

Pensar na Amazônia como um lugar de natureza primitiva seria pintar uma falsa imagem da realidade. A região amazônica cobre cerca de 70% da América do Sul. A bacia do rio Amazonas é praticamente o melhor exemplo de diversidade, não somente em termos de biologia. Muitas comunidades indígenas da região têm sido capazes de preservar suas características culturais distintivas, resultando no mais alto nível de diversidade linguística do mundo. Os especialistas estimam que uma parte significativa da selva tropical (entre 10 % e 12 %) pode ser atribuída ao cultivo cuidadoso e ao uso da terra pela população indígena. Em outras palavras, a floresta primitiva é também uma floresta cultural. 

"Em outras palavras, a floresta primitiva é também uma floresta cultural. 

Muito antes do período da colonização europeia, a bacia do rio Amazonas foi testemunha do desenvolvimento de culturas complexas e altamente diversas, que se adaptaram muito bem a seus respectivos ambientes. 

Dados arqueológicos da bacia do rio Amazonas nos permitem dar uma olhada para mais de treze mil anos atrás. Os dados revelam, por exemplo, que pessoas já tinham domesticado plantas de cultivo pelo menos sete mil anos atrás. A abordagem amazônica do manejo da terra é o resultado de uma longa história de ajuste mútuo entre humanos e natureza. As populações locais de tempos anteriores cultivaram a floresta tropical e assim intervieram na evolução das plantas e das paisagens. 

Em colaboração com os biólogos, os arqueólogos foram capazes de provar que havia maior quantidade de espécies diferentes de plantas crescendo em áreas ao redor de assentamentos humanos do que em áreas inabitadas. 

Carla Jaimes Betancourt, uma arqueóloga da Universidade de Bonn, explica: “Há muitas espécies distribuídas de forma generalizada, tal como a árvore da castanha do Brasil, que é uma planta icônica e valiosa economicamente, que se encontra em toda a bacia do rio Amazonas. Essa árvore tem sido essencial como meio de subsistência para os humanos durante milhares de anos. Sua dispersão atual poderia ser o legado dos assentamos humanos antigos. 


Cultivo 


Estudos ecológicos e arqueológicos sobre a interação entre humanos e natureza tem evidenciado também como o cultivo da floresta amazônica mudou com o decorrer do tempo. 

Betancourt assinala: “A colonização interrompeu as práticas indígenas de cultivo. As raízes deste desenvolvimento se encontram provavelmente no colapso das comunidades pré-colombianas e em suas consequências para a floresta”. 

Deste modo, as descobertas arqueológicas demostram que as culturas indígenas incrementaram a diversidade de seus ambientes e procuraram uma abordagem integrada do cultivo. É neste ponto em que a linha entre natureza e cultura se torna nebulosa, conclui a pesquisadora. 

Averiguar o que os indígenas da Amazônia fizeram exatamente e como afetaram seu ambiente é certamente um tema sobre o qual valeria investigar com maior empenho As políticas globais de conservação da natureza poderiam aprender muito com as práticas desses indígenas. 


Pressão 


Essa é também uma das demandas do Conselho Mundial de Biodiversidade, considerando particularmente que a questão superou a disciplina da história há muito tempo. Os interesses científicos atuais preferem concentrar-se no modo de vida dos indígenas e das comunidades locais de hoje. Como os indígenas lidam com as pressões no sentido do desmatamento, da expropriação e da pressões políticas? 

A história é muito mais antiga, a propósito, do que o período do mandato de Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil: as comunidades indígenas têm sido forçadas a se adaptar a catástrofes tais como as mudanças das condições do seu clima e de seus ecossistemas, às consequências da colonização e ao deslocamento de seus territórios durante séculos. Eles poderiam ser excelentes professores em como controlar os sistemas socioecológicos e em como dominar as crises e as mudanças. 

No entanto, se realmente queremos aprender com eles devemos nos apressar. A diversidade biocultural dos territórios indígenas remanescentes no mundo está sujeita a pressões crescentes. 

"A diversidade biocultural dos territórios indígenas remanescentes no mundo está sujeita a pressões crescentes.

A expansão da prática da monocultura e o avanço da superexploração interferem na capacidade dos cultivadores indígenas de preservar a diversidade biológica, tanto a selvagem como a domesticada. Mesmo assim, seu conhecimento e suas práticas de manejo da terra estão diminuindo a um ritmo mais lento do que nas áreas globalizadas. 

Recentemente, pesquisadores da Universidade Leuphana de Lüneberg e da Universidade de Estocolmo desenvolveram de maneira conjunta um estudo sobre como o conhecimento indígena é incorporado no discurso científico da sustentabilidade. Eles analisaram 81 artigos científicos publicados recentemente e descobriram que o conhecimento indígena é usado frequentemente só para confirmar e complementar as descobertas científicas sobre as mudanças do ambiente, do clima e da ecologia social


Conhecimento 


No entanto, aprender realmente com os sistemas de conhecimento locais e indígenas é uma história totalmente diferente. É mais fácil dizer do que fazer. 

Nossa abordagem científica está baseada na objetividade e em dados verificáveis, o qual é fundamentalmente diferente das ideologias indígenas e de seus valores culturais. 

David Lam, pesquisador em sustentabilidade e autor principal do estudo mencionado anteriormente, explica: “É essencial que cada sistema de conhecimento mantenha sua integridade, ao mesmo tempo que tenta entender o outro”. 

O conhecimento indígena é baseado em experiência e observação, transferidas de geração em geração de forma prática e oral. Lam continua: “este conhecimento está significativamente influenciado pela espiritualidade e pela fé, por isso frequentemente não é levado a sério pela pesquisa científica. 

“Se queremos medir a biodiversidade junto com as comunidades indígenas, primeiro precisamos entender quais indicadores são importantes para elas e por quê”, afirma. 

Os sistemas de conhecimento indígenas também compreendem práticas espirituais e religiosas. Eles são desenvolvidos no processo de transmissão para as gerações subsequentes e são, portanto, capazes de se adaptar às mudanças no ambiente. As relações entre todos os seres vivos (incluindo os seres humanos) e seu ambiente são consideradas como vivas em si mesmas. Tais aspectos são difíceis de introduzir em nossa abordagem científica. 


Conexão 


Pouco tempo atrás, uma avaliação xamanística da floresta teria sido descartada ou, no máximo, considerada como uma metáfora exótica. Porém, hoje sabemos que esse conhecimento cosmológico não cai, simplesmente, do céu. Sinceramente, devemos observá-lo mais de perto e tentar entendê-lo. 

Os Canela, por exemplo, apreciam a beleza de suas variedades de feijões, de acordo com a antropóloga britânica Theresa Miller. Sua pesquisa tem como foco a estética ecológica e na preservação da biodiversidade dentre os Ramkokamekra-Canela no nordeste brasileiro. 

Os Canela gostam especialmente das variedades de feijões que apresentam os mesmos padrões de suas pinturas corporais. Eles gostam de cultivar cinco variedades de feijão-fava que se assemelham a suas máscaras ritualísticas. Assim, os produtores Canela comparam as características físicas dos feijões e dos humanos. 

Eles acreditam que plantas cultivadas como o amendoim, a batata doce, a abóbora e o milho são capazes de tomar decisões; os cultivos escutam as músicas das pessoas, têm memória e inclusive podem sentir emoções. As plantas fazem parte de sua eco-sociedade e têm se tornado elementos de numerosos rituais desenhados para incrementar sua quantidade e estimular seu crescimento. 

Essa conexão próxima e comunicativa entre plantas e humanos é típica de toda a bacia do rio Amazonas. 


Experimento 


Ainda sabemos muito pouco sobre a biodiversidade agrícola dos povos tradicionais da região Amazônica. A publicação, de 2017, sobre América do Sul da série “Conhecendo nossas Paisagens e Recursos” (“Knowing our Lands and Resources”), um estudo comissionado pela UNESCO e pelo Conselho Mundial de Biodiversidade–IPBES,  revela a impressionante diversidade nas hortas do povo afrodescendente Aluku na Guiana Francesa. 

De suas 38 espécies de culturas, os Aluku cultivam 156 variedades – eles diferenciam entre cerca de 90 variedades de mandioca. Seus vizinhos, os Wayana, cultivam 28 espécies e 129 variedades. Os habitantes da bacia do rio Amazonas são campeões em diversificação de tubérculos de mandioca; eles também são especialistas no cultivo de pimenta. 

Os Baniwa, que vivem nas margens localizadas à jusante do rio Içana, por exemplo, cultivam não menos de 78 variedades de pimenta. O interesse generalizado em fazer experimentos com diferentes variedades está amplamente documentado em toda a região Amazônica. 

Além das espécies nativas da região, os habitantes da bacia do rio Amazonas também são altamente habilidosos na diversificação de plantas exóticas como cana-de-açúcar e feijão. Não lhes toma muito tempo adotar novas plantas em seu repertório e diversificá-las. 

Essa prática parece ser uma característica importante e particular dos produtores indígenas: eles dão a impressão de estar menos interessados na domesticação de plantas em grande escala e na determinação de suas propriedades do que em fazer experimentos continuamente com novas variedades selvagens que cultivam em suas hortas, de acordo com Manuela Carneiro da Cunha e Ana Gabriela Morim de Lima, autoras do Capítulo 5 do estudo da UNESCO. 


Florestas 


Isso se torna claro particularmente no exemplo dos Sateré-Mawé. Eles são inventores do processo de extração do guaraná, uma videira selvagem. Os Sateré são especialistas da “não domesticação” dessa videira. 

Eles se recusam a utilizar variedades padronizadas de guaraná que são cultivadas atualmente em operações de grande escala para a fabricação industrial de bebida de guaraná. Em vez disso, eles descobrem frequentemente novos cortes de videiras selvagens, as plantam em suas “hortas florestas” biodiversas, e vendem suas colheitas por meio de uma empresa de comércio justo, o Consórcio dos Produtores Sateré-Mawé. 

Suas práticas poderiam oferecer a chave para entender melhor sua resiliência excepcional em face das constantes mudanças e dos modos de vida ameaçados dos povos indígenas na bacia do rio Amazonas: eles permanecem flexíveis, nutridos e cuidam da diversidade de seus recursos alimentícios básicos, adaptando-se às circunstâncias do seu ambiente biossocial por meio do aproveitamento máximo de suas habilidades. 

"Suas práticas poderiam oferecer a chave para entender melhor sua resiliência excepcional em face das constantes mudanças e dos modos de vida ameaçados dos povos indígenas na bacia do rio Amazonas...

Os benefícios potenciais de tal abordagem ainda não são reconhecidos de maneira suficiente, segundo os apontamentos das autoras do estudo. As políticas oficiais ainda estão longe de levar realmente em consideração as práticas indígenas. 


Perseguição 


A análise científica dos sistemas de conhecimento indígenas também deve estimular o reconhecimento de outro fato importante: se os povos indígenas – não somente no Brasil – que são confrontados com perseguições, assassinatos e incursões nos seus territórios, chamam-se a si mesmos de “guardiões da floresta”, sua mensagem não deve ser entendida como uma frase vazia. 

Eles têm provado isto durante séculos. Proteger as florestas, montanhas e rios na América Latina, no entanto, tem se tornado mais perigoso do que nunca.

"Proteger as florestas, montanhas e rios na América Latina, no entanto, tem se tornado mais perigoso do que nunca. 

Cerca de trinta jornalistas publicaram, recentemente, os resultados de uma pesquisa na plataforma digital “Tierra de Resistentes”. 

A mensagem é clara: os povos indígenas da América Latina estão pagando um preço muito alto por defender a diversidade. No período entre 2009 e 2018, estes jornalistas registraram 1.356 assaltos a povos indígenas e comunidades locais que trataram de defender seus territórios, dos quais 375 tiveram resultados fatais. 

Davi Kopenawa, indígena Yanomami e laureado recente do Prêmio Nobel Alternativo, explicou: “Estamos cuidando da floresta para todos. Trabalhamos com nossos xamãs que entendem bem estas coisas, que possuem sabedoria que vem do contato com a terra”. 

"Os Brancos não podem destruir nossa casa, pois, se o fizerem, as coisas não terminarão bem para o mundo inteiro.





Vista aérea do Vale do Javari, Amazonas,  2018 | Creative Commons /Barbara Arisi

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*Ulrike Prinz tem um Ph.D. em etnologia e é escritora científica independente. Depois de sua pesquisa de campo na região Xingu, Mato Grosso (2000/08-2000/11), lecionou na Universidade Luís Maximiliano de Munique. No período 2004 – 2007, trabalhou como consultora  no Instituto Goethe.

Este artigo foi publicado pela primeira vez em SPEKTRUM. A versão em Português foi publicada no dia 20 de maio de 2020 no portal da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Agapan, www.agapan.org.br, a pedido da autora.

Tradução: Alejandro Campos Castiilo, doutorando do PPGPLAN da Universidade do Estado de Santa Catarina.
Revisão final: Carmen Susana Tornquist, docente do PPGPLAN da Universidade do Estado de Santa Catarina.
Edição: jornalista Heverton Lacerda, vice-presidente da Agapan

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