12 setembro 2017

Movimento ambientalista recorda história e projeta o futuro da luta ecológica

Alvo de espionagens e ataques de "ecopornografia", que permearam a história da luta ambientalista gaúcha, o futuro do ativismo ecológico e seus reflexos no rumo da nossa sociedade foram pautas do Agapan Debate realizado nesta segunda-feira (12) em Porto Alegre.  


Elenita, à esquerda, Milanez, ao centro, e Belmonte, à direita na mesa.


Para tratar sobre o histórico do movimento ambientalista do RS, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) trouxe de Santa Catarina a professora e pesquisadora gaúcha Elenita Malta Pereira, doutora em História pela Ufrgs e autora de "Roessler: O homem que amava a natureza" (2013) e "A conquista da cidadania: Movimentos sociais na história do Brasil" (2015). Com a mediação do presidente da Agapan, Francisco Milanez, Elenita apresentou uma detalhada linha do tempo sobre o surgimento da luta ambiental no Rio Grande do Sul, que em 1971 culminou com a fundação da Agapan. Elenita ressalta
Elenita Malta Pereira
que a Associação foi criada por José Lutzenberger e Augusto Carneiro, ao lado de outros parceiros, em um contexto social imerso nos regramentos impostos pela ditadura militar. Durante a Assembleia Geral de Fundação da Agapan, realizada no dia 27 de abril de 1971, Lutz (como passou a ser conhecido Lutzenberger) proferiu a palestra “Por uma ética ecológica”, publicada posteriormente no jornal Correio do Povo em 29 de agosto de 1971. “Agapan não chegou a sofrer uma repressão de fato, mas era vigiada por agentes do governo”, informou a historiadora. O suposto salvo conduto tinha como principais razões a amizade de Lutz com o almirante Luis Belart e o fato de a luta ecológica não ser vista como uma “ameaça comunista”.
Além do precursor Henrique Luis Roessler (1896-1963), Elenita também registrou a influência de Padre Balduíno Rambo (1906 - 1961), autor de A Fisionomia do Rio Grande do Sul, no surgimento do movimento ecológico. Em 2016, Rambo foi homenageado pela Agapan com a inclusão de seu nome no troféu que a entidade entregará no dia 25 de setembro deste ano (2017) ao vencedor do Prêmio Agapan de Ecologia. A cerimônia será realizada no colégio Anchieta às 19h.
Entre os diversos recortes de jornais apresentados pela pesquisadora, destaques para as lutas da Agapan em defesa da arborização, contra os agrotóxicos e a poluição gerada pela fábrica de celulose Borregaard (atual CMPC), localizada na cidade de Guaíba, às margens e sempre poluindo o rio Guaíba. O lançamento do Manifesto Ecológico, a promulgação da Lei 7747/1981 (Lei ambiental), e a tragédia conhecida como maré vermelha, considerada uma das mais impactantes do RS, também foram relembradas, assim como a fundação da Cooperativa Ecológica Coolméia e a criação da Feira dos Agricultores Ecologista, esta última uma conquista do movimento ambiental que permanece forte e tem sido cada vez mais valorizada pela população que já compreende a importância de uma alimentação saudável, sem agrotóxicos e que ainda promove uma dinâmica de produção social mais justa, limpa e ecológica.
Elenita é editora do blog  A voz da Primavera. Da mesma forma que o palestrante que deu sequência ao debate do dia 11, a pesquisadora reconhece na comunicação uma ferramenta importante para fortalecer a luta ambiental. Ela lembra que Lutz utilizava o termo “ecopornografia” para se referir às propagandas pagas pelas empresas poluidoras para melhorar a imagem de venenos e projetos maléficos à sociedade. Nos dias atuais essa prática continua sendo muito utilizada no que se conhece pelo termo em inglês Greenwashing, técnicas de marketing empregadas para encobrir os malefícios causados por determinadas operações e para criar uma imagem (falsa) positiva de suas atuações. Outra estratégia de empresas poluidoras, como a CMPC (antiga Borregaard), é a intensa compra de espaços em jornais, revistas e apoios a projetos sociais com o objetivo único de gerar uma falsa sensação de inserção e serventia social. Com essa prática, a empresa cala jornais e jornalistas, que optam pelo valor econômico da questão em detrimento da cobertura jornalística de interesse social. Outro exemplo, que não foi citado por Elenita, é a opção que a indústria chilena CMPC fez na escolha do nome da planta de Guaíba para induzir o sensação de inserção social: Celulose Riograndense, como se fosse, de fato, um empreendimento gaúcho.
Roberto Villar Belmonte
O jornalista e professor universitário Roberto Villar Belmonte, que há mais de duas décadas atua no movimento ambientalista, falou sobre os desafios do ambientalismo no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo em que atua em pesquisas na área de Comunicação Social junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Belmonte ministra a disciplina de Jornalismo Ambiental no Centro Universitário Ritter dos Reis (Uniritter).
Na palestra que proferiu no Agapan Debate nesta segunda-feira, Belmonte posicionou sua análise em quatro aspectos: comunicação, articulação, formação e financiamento.
Ele ressaltou que a “Comunicação não é apenas transmissão de informações”. Segundo o professor, “a construção de sentido se dá na interação entre pessoas”.
O palestrante destacou que, no contexto atual de “transição de um mundo analógico para um mundo digital”, a luta ecológica encontra uma sociedade atrelada ao entretenimento. Ele relaciona e classifica os diferentes níveis de acesso às informações nos conceitos amplos de sociedade da informação, sociedade do conhecimento e sociedade do entretenimento, este último um grande desafio para a comunicação do movimento ambientalista por se tratar de um segmento social amplo e que apresenta maior dificuldade para atentar-se aos temas ambientais quando abordados de formas mais profundas e complexas. Neste ponto, foi possível perceber uma convergência com o sentido do termo “ecopornografia” referido por Elenita. “A indústria busca capturar a bandeira ambiental”, afirmou o Belmonte. O pesquisador também destaca que a indústria domina a comunicação, em função do grande aporte financeiro. Aos movimentos sociais, resta encontrar alternativas mais criativas para continuar na briga, através de atuações voluntárias, como já é tradicional, ou encontrando novas formas para fortalecer o tão importante ativismo ecológico.
Em relação à formação, o palestrante destacou a importância de realizar campanhas de novos sócios para apoiarem e atuarem nas entidades ambientalistas, projetos permanentes de educação, aproximação com universidades e formação de novas lideranças.  
Belmonte também falou sobre os desafios de financiamentos de projetos em relação à necessidade de manter a autonomia do movimento ambiental.
A reflexão sobre essa questão justifica-se e tem grande importância dentro de um contexto no qual indústrias e grandes empresas poluidoras buscam cooptar lideranças do movimento ambiental para atuarem em conjunto com suas marcas, seduzindo com montantes financeiros aplicados à projetos que pouco ou nada somam à efetiva luta pela preservação do ambiente natural.
“Quem paga a conta?” e “Por quê?”. Com essas duas questões, o professor e ambientalista encerrou sua palestra, deixando para o grupo de participantes que acompanhou o Agapan Debate a partir da plateia do auditório da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, jovens lideranças e ambientalistas com longa data no movimento, importantes pontos para serem refletidos e debatidos na sequência.
Fonte: Imprensa Agapan


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