02 março 2011

Ciclistas fazem manifesto em Porto Alegre por convivência e respeito no trânsito


Mais de duas mil pessoas pedem ciclovias e justiça no caso do atropelamento de ciclistas. Manifestações de apoio acontecem em várias cidades do Brasil e de outros países. Prefeitura confirma reunião com ciclistas para próximo dia 10.

Do bebê de colo ao aposentado. Mais de duas mil pessoas de todas as idades participaram da manifestação dos ciclistas de Porto Alegre contra o atropelamento da última sexta-feira (25) e percorreram cinco mil quilômetros, do Largo Zumbi dos Palmares à Prefeitura, onde foram recebidos pelo secretário de Governança, Cezar Buzato. Das 18h30 às 21h, palavras de ordem pedindo "Justiça", e coros entoando "menos carro, mais amor, o povo quer ciclovia e metrô", "paz e amor, menos motor", e "uma bicicleta, um carro a menos", ecoaram pelas ruas José do Patrocínio, cruzando a Lopo Gonçalves, Lima e Silva, Fernando Machado e Borges de Medeiros. Durante o percurso até a Prefeitura, várias manifestações. Ataduras, folhes brancas e cartazes simbolizavam sofrimento e paz. Vereadores, artistas, empresários e estudantes defendem a convivência pacífica de pedestres, ciclistas e motoristas.
"Temos que viver e conviver bem, porque a cidade é de todos nós", disse o secretário Buzato, ao apoiar a criação de um Grupo de Trabalho entre representantes da EPTC (empresa pública de transporte coletivo) e dos movimentos de ciclistas. A decisão foi acompanhada pela presidenta da Câmara de Vereadores, Sofia Cavedon (PT). Para ela, como regime de urgência, a Prefeitura deve pintar ciclofaixas, já previstas no Plano Cicloviário de Porto Alegre. "Definir um espaço compartilhado e seguro pode começar a chamar a atenção dos motoristas e do próprio ciclista. As pessoas precisam ser sensibilizadas", diz Sofia, ao anunciar que o pedido de medidas emergenciais será encaminhado ao prefeito nos próximos dias.

Para o também vereador Beto Moesch (PP), o atropelamento é uma das consequências da falta de ciclovias, de bicicletários e de educação no trânsito. "Se tivéssemos segurança, não teria acontecido, assim como essa manifestação mostra o quanto a cidade quer e precisa de ciclovias", diz Moesch. Para ele, a audiência pública prevista para o dia 7 de abril, na Câmara de Vereadores, deve acelerar o processo de implantação da ciclovia de quase 500 kms, prevista no Plano Cicloviário de Porto Alegre. De acordo com o Plano, as ciclovias devem ser implantadas até 2025. "É muito tempo para uma cidade que tem 700 mil veículos, um carro para cada dois habitantes", critica Moesch.
 
VALORES

Jovens, estudantes e professores percorreram a manifestação, que também foi acompanhada por representantes do Vida Urgente, que há 15 anos defende a vida no trânsito. "Nosso trabalho voluntário prega o valor da vida. Precisamos dar mais valor à vida", defende Ananda Paradeda, estudante e atriz, que lamenta "a covardia enorme que aconteceu".

"Vivemos esse risco todo dia", salienta Fábio Tentardini, professor de Educação Física e skatista, ao observar que "o que vale é a lei do mais forte". Mesmo assim, aconselha às pessoas a não se abalarem com o fato do atropelamento. "Andem nas calçadas, mas não deixem de utilizar a bicicleta e o skate", sugere.
De acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, o ciclista não pode andar nas calçadas. "No trânsito, os motoristas buzinam pra assustar e, nos parques, as pessoas se queixam de dividir o espaço. Onde pedalar", pergunta Marina Maia, que participa de pedaladas desde o final do ano passado e usa a bicicleta como meio de transporte para ir ao trabalho. Exemplo similar ao de Alexandre de Tomazewsky, professor de História, conhecido como Fariseu. "Rasguei minha carteira de motorista há 10 anos e vou pedalando ou caminhando a cada uma das cinco escolas onde trabalho", diz.


 
PRESSÃO

Na calçada da rua Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa, a moradora Maria de Lourdes Pereira acompanha o vai-e-vem dos helicópteros da imprensa e a passagem dos manifestantes. "A manifestação tá bem legal. Não esperava tanta gente. Acredito que esse movimento pressione as autoridades a construírem ciclovias", diz, ao considerar uma estupidez o incidente da última sexta-feira.

Para o cartunista Santiago, morador da Cidade Baixa, "há males que vêm para o bem". Ele explica que o debate sobre o trânsito há muito tempo tinha que estar na mídia, "tremendamente comprometida com as montadoras", denuncia. Sua opinião é defendida por Denis Beauchamp, canadense e autor do livro A Casa Limpa da Faxineira Ecológica. Para ele, o carro é a ponta do icenberg do trânsito em Porto Alegre. "Vemos todos os dias a fragilidade do ciclista, cuja vida é colocada em risco", diz, ao contar que a primeira vez que usou bicicleta em Porto Alegre, há quatro meses, foi atropelado por um caminhão e o outro, que vinha logo atrás, passou por cima de seu meio de transporte. "Quem pedala aqui é corajoso", afirma. Denis salienta que a força popular e política da manifestação não vai permitir que a prefeitura permaneça escondida e calada. "Já que o Executivo defende a realização do Fórum Social Mundial, o mínimo que pode fazer é oferecer ciclovia. Não tem porque não ter ciclovias aqui. Agora é a hora".
 
FORÇA POPULAR

A grande manifestação surpreendeu a funcionária pública Andrea Luçardo, que diz usar a bicicleta o máximo possível e que até hoje não sofreu nenhum incidente. Para ela, o trânsito é sempre uma loucura, seja de bicicleta, de carro ou a pé.
Com 10 anos, a estudante da 5ª série Jordana Espinosa diz não ter medo de pedalar, hábito quase diário que mantém com a mãe. Para ela, a manifestação pode alertar aos motoristas que respeitem os ciclistas e que não avancem os sinais. "Isso até ajuda o meio ambiente", completa.

Além de diversão, saúde e não poluição, a bicicleta é uma alternativa para o trânsito, mas é vista principalmente como uma prática esportiva. O comentário é da artista plástica Vera Vignatti, que pedala há seis anos com o grupo Raia Sul e diz não ter coragem de sair sozinha. "Em grupo é mais seguro, mas o que falta é o poder público investir mais em ciclovias".
 
O PODER DAS MÍDIAS SOCIAIS

A participação de mais de duas mil simpatizantes e apoiadores aos ciclistas impressionou muitas pessoas, mas já era esperada por Ricardo Onofrio, integrante do Massa Crítica. "Os movimentos sociais têm se propagado através da internet. Há cinco anos, não teríamos câmeras nem celulares com ferramentas capazes de gravar e disseminar essas imagens. Hoje tudo é documentado e provado, e as respostas são instantâneas", diz. Onofrio considera o atropelamento um ato hediondo. "Ele (Ricardo Neis) assumiu o risco quando atropelou nossos amigos", argumenta, ao destacar que "ele foi covarde, agredindo as pessoas pelas costas, por isso queremos justiça".
Logo após a manifestação, a juíza Rosane Michels decretou prisão preventiva a Ricardo Neis, a pedido da Polícia Civil, que enquadrou o atropelador por tentativa de homicídio duplamente qualificado. Neis, bancário do Banco Central, foi internado no Hospital Parque Belém. Na manhã desta quarta-feira (2), a polícia cumpriu o mandato de prisão e Neis foi transferido para o Instituto Psiquiátrico Forense, onde dever permanecer sob custódia da polícia, com acompanhamento médico. O advogado de defesa, Jair Junko, antecipou que pedirá o habeas corpus do acusado, que já responde a processos por agressão física e trafegar na contramão. Por ser funcionário do Banco Central, há inclusive possibilidade dele ser transferido para trabalhar em Recife (PE).
 
QUEM? ONDE?

O Massa Crítica é um movimento de ciclistas que defende o uso da bicicleta como meio de transporte saudável e ecológico para todos. Integrantes e simpatizantes se reúnem para pedalar todas as últimas sextas-feiras de cada mês, com saída às 18h30, do Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre.
Na última sexta-feira (25), mais de 100 ciclistas percorriam a rua José do Patrocínio, quando foram atropelados pelo carro dirigido por Ricardo Neis. Nove pessoas foram levadas ao Hospital de Pronto Socorro da cidade. Todas foram liberadas sem ferimentos graves. O motorista fugiu do local sem prestar socorro. Várias manifestações de apoio acontecem em diversas cidades.
Nesta quarta-feira (2), haverá Bicicletada em solidariedade aos ciclistas de Porto Alegre no Rio de Janeiro, com saída às 18h da Cinelândia, em frente ao Cine Odeon. Também na quarta, em curitiba, pedalaço a partir das 18h no pátio da Reitoria da UFPR. Brasília também se prepara para realizar uma manifestação ciclística. Na última segunda-feira (28 de fevereiro), a Bicicletada de São Paulo movimentou a avenida Paulista, com centenas de manifestantes.


Mais informações no
http://massacriticapoa.wordpress.com/

Por Adriane Bertoglio Rodrigues, especial para EcoAgência de Notícias.
Agapan Comunicação

Fotos crédito: Adriane Bertoglio Rodrigues

Um comentário:

Unimed disse...

Muito importante a conscientização e divulgação de formas alternativas de locomoção. E o respeito a essas formas no trânsito se faz mais importante ainda. Parabéns pelo blog!

Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo
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